quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

FÁBULA DE UM PAI

B.O. - Boletim de Ocorrência

Local: cidade do Rio de Janeiro

Caso: tentativa de assalto

Envolvidos: três cidadãos do sexo masculino

Meliantes: dois homens

Vítima: policial militar (à paisana)
Ocorrência: dois bandidos tentaram roubar a moto de um cidadão. Ao perceberem de que se tratava de um policial, tentaram matá-lo. A vítima reagiu matando um dos meliantes. O segundo fugiu do local da ocorrência. A vítima com ferimentos no pé foi levada ao hospital.
Comentário:  Seria  mais uma ocorrência entre  muitas que acontecem diariamente em diversos lugares, não fosse o aparecimento no local do fato de um homem usando uma camisa vermelha.
Cabeça grisalha, olhar triste, andar firme, o homem de camisa vermelha, dirigiu-se aos policiais que estavam no local, cumprimentando cada um deles, com  aperto de mão e um leve toque no ombro. Após esse ritual, colocou-se à distância.  Parado, olhava para o local onde o corpo do bandido estava coberto por um plástico preto.
Esse cidadão, de aparência austera e demonstrando por suas atitudes ser trabalhador sério e ético, era o pai do assaltante morto.
Comovente a imagem do homem de camisa vermelha. A tristeza em seu rosto demonstrava o seu constrangimento diante da cena. O ato de cumprimentar os policiais foi uma atitude de desculpas pela ação de seu filho.
O que estaria passando pela cabeça grisalha do homem de camisa vermelha? Quais questionamentos ele estaria se fazendo? Que lembranças vieram à sua mente? O nascimento daquele filho, sua infância e adolescência. As brincadeiras e o relacionamento. Em que momento houve falhas?
Em silêncio, o homem de camisa vermelha acompanhou todo o ritual de retirada do corpo do filho do local, seguindo solitário e triste seu caminho, deixando uma lição para quem assistiu a cena pelo telejornal dessa manhã do dia 9 de janeiro de um quente verão carioca.
Lição? Cada um que tire as suas próprias conclusões, refletindo sobre a atitude do homem de camisa vermelha.
Edison Borba

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

FAZENDO A FICHA

Idade: 14 anos.
Sexo: feminino.

Local de residência: periferia da cidade de São Paulo.
Estado civil: solteira.

Condição na sociedade: menor de idade.
Atividades:  furtos, tráfico de drogas, dirigir sem habilitação e  assassinato.

Futuro: progredir em sua carreira, com grandes possibilidades de se transformar em chefe de quadrilha.
No momento, goza de proteção das leis. Sua condição de ser “quase” uma criança,  permite-lhe entrar e sair das delegacias. Ficar em repouso em casa de amparo à infância e a adolescência.  Aprender mais truques de malandragem. Fazer bons contatos que irão garantir-lhe ascender no mundo do crime.

Caso: no litoral de São Paulo, uma adolescente de 14 anos, mata um homem, diante de sua família, numa tentativa de roubo.

Destacando: a mãe da menor está colaborando com a polícia no sentido de facilitar a apreensão da mesma.

Comentários: até quando a sociedade terá que conviver com esse tipo de situação. Menores cometendo crimes sem que haja nas nossas leis efetivamente condições de recuperação. O que fazer com uma menina que desde os doze anos  pratica  delitos?  Como recuperá-la? Quem vai ser responsável por sua educação e inserção na sociedade?

Enquanto não se consegue responder essas questões, seguimos acompanhando o crescimento de uma nova sociedade composta por meninos e meninas, vítimas que fazem vítimas. Vidas que se perdem ou pela bala de um revolver ou pelo abandono e descaso de uma estrutura politicamente incorreta.

Amanhã esse caso se transformará em estatística. A menina continuará morrendo vagarosamente a cada dia e a cada delito cometido.

Nós continuaremos perplexos!

Edison Borba

 

 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

QUEM SOMOS NÓS?


Que somos solidários em campanhas beneficentes.
Mas, dirigimos nossos carros alcoolizados.

Que lideramos passeatas lutando pela preservação das florestas.
Mas, jogamos lixo nas ruas.

Que discutimos e apoiamos a luta pelos direitos humanos.
Mas, somos preconceituosos quanto às opções sexuais.

Que rezamos e pedimos melhores dias para às nossas famílias.
Mas, não aceitamos a diversidade religiosa.

Que vestimos branco e rezamos  quando nasce um novo ano.
Mas,  continuamos a repetir atitudes indelicadas e antiéticas em nossos dias.

Que exigimos que as leis sejam cumpridas.
Mas, nos negamos a soprar o bafômetro quando o nosso carro é parado numa blitz.

Que criticamos os maus hábitos dos filhos dos  nossos vizinhos.
Mas, permitimos que em nossas casas haja desrespeito entre pais, avós e irmãos.

Que protestamos contra os maus políticos, os que não cumprem  com o  dever.
Mas, cometemos deslizes que prejudicam outros cidadãos.

Que choramos assistindo cenas comoventes nas novelas.
Mas, somos indiferentes com a situação de nossos semelhantes.

Quem somos nós?
Seres humanos, descendentes do Homo sapiens.

Somos orgulhosos das nossas invenções.
Somos empresários, operários, ricos e pobres.
Somos gente!

Talvez, esteja  nos faltando, a tomada de uma decisão.
A definitiva.
Que tipo de gente, queremos ser?

====== Atenção:  o ano mudou mas em São Paulo as chacinas continuam. No Rio de Janeiro,  balas perdidas ainda cortam o céu azul de anil.

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Edison Borba

domingo, 6 de janeiro de 2013

REFLEXÕES DE CALÇADA

A bota de um soldado  encontrou-se casualmente com a sandália de um surfista. Tentando uma aproximação e até uma futura amizade, fez observações sobre a sua vida. Apresentou-se como  patriota. Contou das façanhas que havia praticado. Falou das batalhas e das guerras. Da coragem que era preciso ter para calçá-la.
Passando pelo local, o sapato de um empresário, parou para argumentar, na perda de tempo daquela discussão. As duas paradas na calçada, jogando conversa fora enquanto ele o sapato, se dirigia para a empresa. Ele sim era importante, trabalhava num escritório, comandava diversas botinas de couro ruim, algumas com buraco na sola. Com ele, todos andavam muito o dia todo, todos os dias. Era necessário produzir, mesmo causando calos nos pés que as calçavam. Mas, ao final de cada mês os lucros subiam.
O bate - boca já se tornava intenso, quando uma saltitante sapatilha, que passava no local, indo para o teatro, pediu para dar a sua opinião.
A linda sapatilha cor de rosa, nas pontas, fez uma pirueta e simplesmente afirmou: eu sou a mais importante, porque represento a arte. Todas as noites uma plateia maravilhada me aplaude. Sou famosa, faço as pessoas felizes.
O rebu já estava  complicado, quando uma chuteira, parou o seu moderno carro, e descendo até a calçada, pediu a palavra. Mandou que todos olhassem para o seu veículo importado. Ela a chuteira, estava por cima, todas as crianças, meninos e meninas, queriam calçá-la. Ela se tornara o símbolo da riqueza e do poder. Até na moda  já estava influenciando. Cabelos eram moldados nos salões de beleza por outros calçados que sonhavam com o seu status.
E assim a bota, o sapato, a sapatilha e a chuteira discutiam acaloradamente sobre as suas importâncias. Quem era a mais famosa. Quem era a mais poderosa.
Sem que os vaidosos  percebessem, a sandália caminhou pela praia e mergulhou nas águas azuis do oceano. Fez malabarismos entre as ondas. Flutuou na maré e voltou ao local do sururu. Molhada pela salgada água sabiamente falou: todos nós somos importantes, desde que não pisemos nós outros calçados, não apertemos os pés de quem nos usa, formando doloridos calos. Todos nós precisamos de pelo menos um dia de liberdade para um mergulho no mar, num rio, numa piscina ou “piscinão”,  fazer um passeio no parque, gozando a vida sem medo e preconceitos.
Cada um com sua utilidade e sem futilidade, podemos gozar da felicidade que a liberdade permite.
Edison Borba

sábado, 5 de janeiro de 2013

REFEIÇÕES DEMOCRÁTICAS

         No carnaval rabanada

No natal só feijoada

Para a modelo costela

Que desfila em passarela

Gordurosa o bastante

Pra escorregar na “goela”

Para o atleta salada

Pra ficar forte e robusto

          Ao  vovô uma fritura

Que cola na dentadura

Mungunzá para o bebê

Pra calar a choradeira

Dentro da mamadeira

Para a  madame churrasco

Servido na compoteira

Papinha  come o papai

Pra tirar a barriguinha

A mamãe a saladinha

Bem verdinha e sem tempero

Para as  crianças feijão

Preto, branco ou mulatinho

Com mandioca e farinha

Tudo com muito carinho

Ao  milionário só o pão

De preferência dormido

O mendigo caviar

Tem direito de provar

Na Páscoa salgadinhos

Empadinhas e rissoles

Para os políticos rapadura

Que é sabor do Brasil

Aos emergentes somente

Café sem leite bem  frio

Sem sabor e sem açúcar

Aos operários, banquete

Com todos os ingredientes

Dos servidos nos palácios

Iguarias estrangeiras

Vinhos dos mais variados

Servidos  só no cristal

A louça  de porcelana

Usada pelos “bacanas”

Pra tudo ficar  gostoso

E muito mais saboroso

          Servido com  igualdade

E como diz  minha tia

Sabor de democracia

Edison Borba

 

 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

CHORA ZECA PAGODINHO

Emocionante a imagem desse homem, cantor, compositor  e sambista. Uma figura, sempre associada à alegria e a festa.
Zeca chorou diante da destruição de sua cidade. Sempre orgulhoso de morar em Xerém, não segurou às lágrimas que se misturaram com a água da chuva que molhava o seu rosto.
As lágrimas do Zeca também significavam  indignação pelo descaso com que as autoridades políticas tratam o povo.
Crescimento populacional desordenado, construções em áreas de risco, coleta inadequada de lixo, desmatamento, desvio de verbas entre tantas outras situações desagradáveis, que retratam a verdadeira cara de muitas cidades do Brasil.
Chora Zeca Pagodinho, quem sabe as suas lágrimas irão tocar o coração daqueles que deveriam ter maior sensibilidade para com seus eleitores.
Impossível não ser REPETITIVO, todos os anos escreve-se sobre os mesmo problemas: chuvas, enchentes, desabamentos, mortes, lixo, rios transbordando, prejuízo da população, perdas e mais perdas, lama, doenças, ratos, roubos e desvio das verbas enviadas para socorrer as vítimas.  
Anos e anos os problemas se repetem. Às vezes ficamos em dúvida se as imagens não são as mesmas dos anos anteriores. Jornalistas fazendo as mesmas perguntas. Cinegrafistas filmando imagens já bastante conhecidas: cidadãos chorando a perda de  bens, famílias velando seus mortos, ruas cobertas de lama e outras tantas  que já nem causam tanto impacto.
Vivemos num país de contrastes. Uma mistura de alegria e dor. Sofrimento e festas. Futebol e crimes. Violência e solidariedade. Progresso e atraso. Ordem e desordem. Voluntários e vagabundos. Doações e desvios. Carnaval e pobreza.
Essas contradições fazem parte das características de toda a humanidade, porém no Brasil isso acontece de forma grotesca, declarada, escancarada sem nenhuma vergonha ou medo de punições. É tudo muito escancarado. Não há mais preocupação em fingir é tudo feito às claras, fotografado e documentado.
É cansativo conviver com essa controvertida situação. Corre-se o risco de ser considerado pessimista. Ser contrário ao progresso. Ser um antigovernista. Ser rebelde sem causa. Ser um chato.
Chora Zeca Pagodinho, você tem a força do samba. Você tem carisma. Você é um homem do bem e de bem. Você é um cidadão ético.
Provavelmente as suas lágrimas poderão ajudar a lavar sua querida cidade e até quem sabe todo o território nacional.
E as chuvas continuam!
Edison Borba

 

 

 

 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

ANO NOVO – HOMEM VELHO

Apesar do ano, ser novo, as situações criadas pelo homem, continuam  velhas. Infelizmente é muito difícil mudar maus comportamentos desenvolvidos durante séculos. Os acontecimentos provocados pela humanidade são tão estranhos, que fica difícil de acreditarmos que seja verdade.
Em Duque de Caxias, uma cidade do estado do Rio de Janeiro, um rio pegou fogo. Isso não é brincadeira, um rio ardeu em chamas. No rio Calombé, não corre mais água, que foi substituída por combustível. Empresas despejam material inflamável poluindo o manancial de água.
Esse é o comportamento do  homem moderno?
Mas o fogo não atinge apenas as águas do rio Calombé,  extensas áreas de mata ardem na Amazônia. O desmatamento continua sem controle, aumentando anualmente.
Essa  atitude é compatível com o século vinte e um?
As chuvas de verão chegaram e com elas, enchentes, desabrigados, mortes, desalojados, prejuízos e doenças. Essa situação já é tão comum que não causa mais impacto. Em 2012, nessa mesma época, cidades foram devastadas, vidas perdidas e grandes prejuízos para a população. Nesse novo ano (2013), a situação se repete.
Os destroços das chuvas das tempestades das enchentes do ano passado ainda não foram totalmente recolhidos.
Essa forma de administrar é compatível com a tecnologia moderna?
A natureza é previsível, ela é cíclica, portanto permite calcular, organizar, prever algumas situações relacionadas às mudanças de tempo e temperatura.
O ano é novo, mas o homem continua velho em suas atitudes!
Lamentavelmente, os comportamentos inadequados são os que mais se evidenciam. Apesar de haver o lado bom nos seres humanos, o outro lado prevalece.
Atitudes beiram ao grotesco. Na região sul do Brasil, no dia da posse dos vereadores eleitos no último pleito, uma vereadora forjou o próprio sequestro para não comparecer a uma sessão da câmara.
Isso é  uma demonstração de um velho comportamento!
Mulheres, uma delas adolescentes foram atingidas por balas perdidas nos últimos dias aqui no Rio de Janeiro. O hábito de comemorar o Natal e os festejos do réveillon, usando armas de fogo, é uma das causas dessa tragédia.
Ano novo comportamento velho!
O número de acidentes nas estradas não diminuiu. Acidentes por excesso de ingestão de bebida alcoólica e imprudência dos motoristas foram os principais motivos.
Em todo o mundo, essas situações se repetem, infelizmente!
Guerras, revoltas, revoluções, crises financeiras, preconceitos, estupros entre outras velhas e terríveis atitudes ainda teimam em continuar a serem exibidas pelo homem.
Apenas o ano é novo, o homem continua velho em suas ações!
Estou apostando no lado bom da humanidade. Estou apostando no lado humano do homem. Estou apostando na educação. Estou apostando num novo homem  para os próximos novos anos.
Eu ainda  estou tentando acreditar!

Edison Borba