quinta-feira, 14 de março de 2013

LEITO VAZIO

Sala branca,
Sala fria,
Sala silenciosa.
Pessoas em leitos são monitoradas por aparelhos.
Todas estão adormecidas ou entorpecidas.
Um leve sussurro é ouvido, provavelmente de  respiração.
A sombra na parede identifica uma imagem de mulher.
Pode-se observar que ela caminha para um dos leitos.
Aproxima-se de um dos aparelhos.
Um arrepio toma conta dos que ainda conseguem perceber o perigo.
A lucidez de alguns, são garantia para a sua sobrevivência.
A sombra se afasta e o silêncio volta a ocupar o ambiente.
Alguns pacientes já não produzem  ruído algum.
A morte está presente na sala fria, branca e silenciosa.
Um raio de luz avisa que um novo dia chegou.
Uma enfermeira constata que mais uma vida se esvaiu.
Um cidadão foi a óbito.
Sem demonstrar emoção, providencia a remoção.
Ato mecânico, de quem já esperava o fato.
Mais um leito vazio.
Abriu vaga na UTI.

Em memória aos leitos vazios da UTI do hospital Samaritano / PR.

Edison Borba

APENAS UMA VOZ

Novamente o telefone, voltou a me chamar.
Relutei em atender, e ouvir aquela voz.
Atendi e não falei, por segundos esperei.
Finalmente um bom dia, como vai, está tudo bem?
Continuei calado. Mudo. Estarrecido. Assustado.
Não queria,  mais ouvir, aquela doce voz.
O mesmo encanto e o riso de menino fanfarrão.
A alegria de sempre, contagiante sem dúvida.
Aos poucos fui me deixando, novamente cativar.
Como a raposa famosa, estava eu encantado.
Me sentindo responsável, por  alguém que nem conheço.
Que me fascina e enternece, como filho desgarrado.
Aquele que entre os outros, é sempre o mais amado.
Respondi ao chamamento. Atendi a ligação.
Entreguei-me em devaneios, àquela voz distante.
Impossível resistir quando se está fascinado.
Mais uma vez fui vencido, pela voz misteriosa.
De alguém que tanto amo, sem sequer saber o rosto.
É melhor que seja assim, ficar apenas em sonhos.
Imaginar delirar sem ter forma definida.
Apenas aquela voz, que me basta ao ser  ouvida.
 
Edison Borba

 

quarta-feira, 13 de março de 2013

ELEIÇÃO PAPAL

           Os olhos do mundo estão voltados para Roma, mais especificamente para o Vaticano. Começou o conclave, que irá eleger um novo Papa, que terá influências não apenas para os católicos, mas para todo o mundo.
Um Sumo Pontífice,  além de líder religioso, possui também uma grande força na política internacional. Suas decisões e opiniões causam grande impacto nas mais diferentes sociedades nos cinco continentes.
Especificamente o catolicismo, vem sofrendo grandes abalos em suas rígidas normas. Questões envolvendo sexualidades, pedofilia, aborto entre outros fatos fizeram com  que o fechado mundo do Vaticano, fosse obrigado a apresentar a sua opinião. Como conviver com as grandes ebulições sociais.  Uma globalização  responsável por   mistura de costumes, modas, crenças além de outras situações que durante muito tempo, se mantiveram  fechadas num universo em que muros,  limitavam e dividiam os povos.
Nos últimos tempos estão crescendo rapidamente, movimentos religiosos que prometem sucesso, saúde e soluções para os mais diversos problemas, bastando apenas que o cidadão deposite a sua fé, nos cofres encontrados em alguns altares. Oradores inflamados mostram curas das mais diversas doenças. Cancerosos exibem seus exames, com tumores antes e depois de suas conversões. Sucessos nos negócios. Mudanças sociais. Cegos enxergando, paralíticos andando, são demonstrações de cura, que nos remete aos tempos de  Jesus na terra. A diferença está na quantidade de milagres e milagreiros. Somando todos os que estão narrados na Bíblia, não atingiremos nem a metade dos realizados nos últimos anos.
A Igreja Católica  tem perdido seguidores para essas liquidações milagrosas. O  povo quer ter seus problemas resolvidos de forma imediata. A fé está cedendo à velocidade do mundo moderno. No universo em que basta um clique num determinado botão para entrar em contato com milhões de pessoas, o tempo da reza, da espera e da paciência está dando lugar ao imediatismo religioso.
O novo Papa terá que conviver com tudo isso e muito mais. A  estrutura do Vaticano está dividida entre os conservadores e os reformistas. Essa será uma eleição polêmica, em que a política poderá ser mais forte que a religiosidade.
Conservar o que e como? Reformar o que e como? São questões  que irão exigir grande delicadeza e sutileza do novo Pontífice, que deverá  ter inteligência, carisma, cultura e acima de tudo muita fé para manter a crença e a espiritualidade entre os humanos.
Uma de suas tarefas será resgatar comportamentos humanos, que estão dissolvidos e enfraquecidos pelo comércio religioso. A necessidade de  obter bens materiais  a curto prazo, o culto ao corpo e aos desejos estão testando todas as religiões e religiosos.
O mundo religioso nunca esteve tão dividido. Existe um mercado de almas, onde cada  igreja tenta ganhar mais fiéis que a sua concorrente. A mídia tem ajudado a proliferar esse mercado. Estamos acompanhando a construção de uma nova Torre de Babel.
Essa será uma grande tarefa para o novo Papa, estabelecer um diálogo entre as mais diferentes modalidades de expressão religiosa, fortalecendo a crença de que  todos os caminhos levam a Deus.
Creio que o maior desafio do novo Papa, não está nas questões materiais, sexuais, belicosas entre outras. O seu grande desafio será na transformação da alma humana. Ele terá que levar seu rebanho a crer e voltar a desenvolver uma fé pura e inabalável. Não orar para obter, mas rezar por acreditar que as palavras de uma oração tem a força da modificação. Será necessário resgatar o homem que se transformou em máquina. Estabelecer um equilíbrio entre tecnologia e humanidade. Divertimento e moral. Lucro e ética. O mundo religioso precisa voltar a crer num Deus único.
O novo Papa terá uma árdua caminhada.
Boa sorte ao novo Pontífice! Que ele consiga fazer renascer a mais pura fé, que deve existir em cada um de nós. Que todas as igrejas consigam reunir homens e mulheres que buscam a paz e a tranquilidade. Que não exista preconceitos e que a palavra acolhedora seja proferida por todos os que estão liderando os mais variados segmentos religiosos.
Que voltemos a crer em Deus e que os templos sejam  simplesmente casas simples, cujos telhados sejam de vidro, para que possamos enxergar  o céu e também não esquecer que não podemos atirar pedras em ninguém.
Edison Borba
 

 

O TRISTE DESTINO DA LETRA H

Criei uma hipótese
Sobre a hipotenusa
Era apenas hipotético
O que eu quis apresentar
Não quero parecer hipócrita
Tentando esconder a verdade
Como tentar colocar um hipopótamo
No armário.
Também não vou transformar uma reta
Em hipérbole
Apenas quero criar uma nova historinha
Dessas que a gente inventa
Para as crianças ninar
Porém, só consigo pensar no prazo da hipoteca.
Está no limite,  vencendo
E eu aqui escrevendo
Tentando imaginar o que fazer com o “agá”.
Que parece até fantasma
Existe mas ninguém vê
No caso dela, coitada, tem que ficar calada.
O “i” é o seu rival
Nada o substitui
Ele é sempre triunfal
Mesmo quando se trata de coisas grandes enormes.
Hipertensão que horror é doença perigosa
Sem falar na hiperfunção da tiroide uma glândula
Situada no pescoço que quando aparece caroço
Causa logo um alvoroço
Coitadinho do “agá” uma letra misteriosa
Existe mas ninguém lê
E tem coragem de pronunciar
Só faz presença nos livros para
Pra professora ensinar
Sozinha e sem alento
Pobrezinho desta letra
Só existe pra constar
Vive no esquecimento.
 
Edison Borba

terça-feira, 12 de março de 2013

MISÉRIA

O governo, através de pesquisas  aprofundadas de sociólogos, nutricionistas, estatísticos, administradores entre outros conhecedores do assunto, estipulou o teto de setenta reais como o básico para um indivíduo sair do que se considera miséria.
Não sou um bom conhecedor do assunto, mas fico imaginando passar um mês de 30 dias, apenas com setenta reais para as minhas refeições.
Não consigo entender, porque sempre estive acima dessa margem e apesar de não estar no topo da lista financeira, sempre consegui me alimentar com um pouco mais de folga nas minhas finanças.
Consultando material disponível sobre o assunto, encontrei o prato com a refeição conseguida com essa importância estabelecida pelo governo.
A dieta diária saudável mínima, segundo o Ministério da Saúde, aplicada nos menores preços pesquisados pelo DIEESE em janeiro de 2013, foi:
Ø  Dois terços de uma banana
Ø  Um tomate
Ø  21,4 g de carne moída
Ø  54,3 g de farinha de mandioca
Ø  17 g de feijão
Ainda estou tentando imaginar um prato contendo essas porções. Estou buscando entender como um trabalhador, um operário, um cidadão consegue  manter-se em condições de produzir para o país, trabalhando um mínimo de oito horas dia, sendo alimentado apenas com essa quantidade de alimentos.
Para tornar essa situação mais séria, a região nordeste enfrenta uma de suas piores secas. A escassez de comida está fazendo moradores do município de Assunção do Piauí, caçarem um tipo de roedor, conhecido como “rato-rabudo” para complementar a sua alimentação. Essa situação, não aparece com destaque em nossas manchetes. Creio que poucos brasileiros, saibam da grave situação vivida pelos habitantes de algumas regiões dos estados do  nordeste. Estamos neste momento atravessando uma das piores secas dos últimos anos. Nossos irmãos de algumas regiões nordestinas estão vivendo momentos de uma grande tragédia, assunto pouco divulgado pela nossa mídia.
Repito, não sou “expert” em assuntos que tratam de política social, mas sou trabalhador e se meu prato diário contivesse apenas essa ração, hoje eu não estaria aqui escrevendo.
Nem é preciso fazer críticas, a situação fala por si só. É difícil não pensar nos polpudos salários dos nossos políticos. Nas retiradas extras, nas “maracutaias”, nos desvios de verbas e nas farras parlamentares, que acontecem desde que a nossa república foi proclamada. Dois tipos de miséria: uma social e a outra moral.
Pensar que um trabalhador não tem direito nem a uma banana inteira é desesperador. O que desejamos, como brasileiros,  é um pouco mais de humanidade. Sabemos que nem todos os políticos são desonestos. Existem muitos bons exemplos em todos os níveis de lideranças, porém esse número é tão ínfimo que não faz peso na balança da justiça.
No país do futebol, dos grandes investimentos, que está na lista das possíveis maiores nações, não aguenta mais conviver com esse tipo de discrepância. Enquanto a distribuição de renda for calcada na desigualdade, não seremos uma nação forte. É vergonhoso sabermos que muitos brasileiros não possuem condições de uma refeição digna, mas estamos construindo gigantescos estádios de futebol, que após a copa serão de muito pouca serventia, além de outros investimentos que servem apenas para encobrir negócios escusos.
É difícil entender. É difícil conviver.
Isso é uma vergonha, como afirma de Boris Casoy.
Edison Borba

 

segunda-feira, 11 de março de 2013

MONSTROS

Por que viramos monstros no trânsito? Pergunta escrita num pedaço de papelão e colocada num poste, na  Avenida  Paulista, centro da capital de São Paulo.
Ontem, domingo, dia 10 de março, um motorista de 22 anos embriagado, atropelou um jovem que seguia de bicicleta para o trabalho.
O impacto foi tão forte que um dos braços do ciclista, ficou preso no para-brisa do automóvel do atropelador.  O motorista, além de não parar para prestar socorro  à vítima, jogou o membro amputado, dentro de um córrego. Por este motivo, não será possível uma cirurgia de implante do braço.
Ciclistas de São Paulo organizaram um protesto, na mesma avenida onde ocorreu o acidente.
Fizeram barulho, pediram por justiça e deitaram-se no chão gritando palavras de ordem. Um dos manifestantes colocou num postes da via, o papelão com a frase, que contém uma das maiores verdades ditas até hoje sobre  a violência no trânsito.
Qual o motivo que nos leva a atitudes monstruosas, quando estamos à frente de nossos veículos? Por que  desrespeitamos as leis? Por que matamos? Por que bebemos e dirigimos?
Essas muitas outras perguntas precisam ser respondidas individualmente por todos nós. Quando  pedestres somos o “médico”, mas quando dirigimos somos o “monstro”. Uma dupla personalidade que parece existir em cada um de nós.
Como deter o monstro que assume o volante dos veículos que circulam diariamente por nossas ruas? Leis mais rígidas? Punições severas? Educação?
Qualquer que seja o caminho é preciso que haja uma ação rápida, para que histórias como essa não voltem a acontecer.
O motorista infrator apresentou-se à polícia acompanhado por um advogado, que alegou que seu cliente fugiu por medo de ser linchado. Obviamente, conforme o previsto nas leis brasileiras, o marginal negou-se a fazer o teste do bafômetro.
Provavelmente hoje ele já deve estar dirigindo um novo carro, feliz e contente. A família do jovem mutilado irá amargar junto com ele um longo e triste caminho de recuperação.
Sonhos perdidos, família em desespero e mais um caso para entrar nas listas das estatísticas.
Que horror!
Edison Borba
 
 

 

APENAS UM LUGAR

Uma estrada tortuosa
Feita de barro vermelho
Uma casa pequenina
Alameda de coqueiros
Passarinhos em seus ninhos
Jasminzeiros no jardim
Água  tirado do poço
Bebida na palma da mão
Fruta colhida do pé
Madurinha   madurinha
Derretendo em nossa boca
Como bala de hortelã
Gado pastando na grama
E cheirinho de café
Tudo isso e muito mais
Mangueiras e mamoeiros
Limoeiros e amoreiras
Um balanço no quintal
E as redes na varanda
Amigos batendo papo
Verdura fresquinha na horta
Brisa suave no rosto
Figa de guiné na porta
Um cantinho de oração
Com gruta e Nossa Senhora
Um velho banco em madeira
Pra sentar e meditar
Pensar na vida e na sorte
Agradecer aos amigos
Pelo  carinho e amizade
A  Deus por tanta bondade
Pela paz e harmonia
Vividos na casa branca
Construída bem distante
Num lugar tranquilo e lindo
Onde semeado o grão
Germina rapidamente
Se transformando em trigo
E na nossa mesa em pão.

Edison Borba